Helio Bialski



“Sempre levarei meu pai em coração e pensamento”

Por Da­niel Bi­alski

Re­cen­te­mente, minha filha com­pletou 12 anos e re­cebeu um pre­sente de um fra­terno amigo o livro Aprendi com meu pai. O tí­tulo se­dutor ins­tigou-me a lê-lo, razão pela qual o levei na ba­gagem de vi­agem que fiz, acom­pa­nhando meu filho em com­pe­tição de fu­tebol na Ar­gen­tina, no úl­timo dia 27 de abril. E ainda lá co­mentei com amigos que al­gumas das his­tó­rias do livro re­me­tiam-me a lem­branças do meu pai, porque re­tra­tavam li­ções de vida.

Porém, in­fe­liz­mente, quis o des­tino que eu per­desse meu pai no úl­timo dia 30 de abril. Chorei a partir do mo­mento que fui co­mu­ni­cado da sua morte e cho­rarei pelo resto dos meus dias, pela enorme sau­dade que sinto e porque se­quer tive a opor­tu­ni­dade de me des­pedir e agra­decer por tudo que ele me fez e me en­sinou.

A his­tória de meu sau­doso pai é mar­cada por muita luta, garra e de­ter­mi­nação. Meus avós pa­ternos vi­eram da Polônia, fu­gindo do Na­zismo, e nunca ti­veram si­tu­ação econô­mica pri­vi­le­giada, o que obrigou meu pai a, desde cedo, tra­ba­lhar para ajudar no or­ça­mento do­més­tico e para pagar seus es­tudos na Fa­cul­dade de Di­reito do Mac­kenzie, que con­cluiu com enorme louvor.

Da con­vi­vência com ele nasceu uma ad­mi­ração que trans­cendeu a na­tural re­lação pa­rental. Muito mais do que amá-lo, eu o ad­mi­rava e o tinha na conta de ídolo, mo­delo e pa­ra­digma. Tí­nhamos um vín­culo de cum­pli­ci­dade e com­pa­nhei­rismo, pois havia uma sin­tonia per­feita entre nós, desde minha in­fância, no pas­sado como pai e filho e há anos também como só­cios, par­ceiros e grandes amigos.

É a ele que devo o fato de ter-me tor­nado ad­vo­gado. Desde pe­queno, o via ma­nu­se­ando autos de pro­cessos imensos e o ad­mi­rava por en­tender todo aquele in­trin­cado con­junto de pa­péis, dele fa­cil­mente sempre ab­sorver o me­lhor para a de­fesa de seus cli­entes.

Por vezes, ainda pe­queno, o acom­pa­nhava ao es­cri­tório e o ad­mi­rava da­ti­lo­gra­fando nas hoje ul­tra­pas­sadas má­quinas de es­crever, usando papel car­bono e atento a cada de­talhe do pro­cesso, sem deixar passar nada em branco. Meu pai era do­tado de uma in­te­li­gência rara e de uma pers­pi­cácia in­comum, rá­pido no ra­ci­o­cínio e nas res­postas. Co­nhecia muito do Di­reito, mas era, também, um grande psi­có­logo da vida, um fi­ló­sofo da exis­tência e, prin­ci­pal­mente, uma alma de mag­ni­tude sem pa­ra­lelo.

E foi dentro desta longa tra­je­tória que al­gumas his­tó­rias me mar­caram. A pri­meira delas não é li­gada ao Di­reito, mas sim ao senso in­comum que meu pai tinha de ge­ne­ro­si­dade e que tenho como es­pelho. Numa destas mi­nhas vi­sitas ao seu es­cri­tório que se lo­ca­li­zava no centro velho, Rua Quin­tino Bo­caiuva, íamos al­moçar e, en­quanto ca­mi­nhá­vamos, ele foi abor­dado por um me­nino de rua que lhe pediu di­nheiro para poder comer al­guma coisa. Meu pai ime­di­a­ta­mente disse àquele me­nino que se ele es­tava com fome mesmo que vi­esse co­nosco e ele o fez, quando, então, nós três al­mo­çamos num res­tau­rante que fi­cava na Rua Barão de Pa­ra­na­pi­a­caba. Essa foi uma grande lição de vida que sigo e tento re­trans­mitir aos meus fi­lhos, a tratar todos de ma­neira igual e ajudar quem pre­cisa.

Talvez por causa de exem­plos como este e desta pro­xi­mi­dade enorme com meu pai, sempre dizia que, quando cres­cesse, queria ser igual a ele. Por isso que exa­ta­mente optei por es­tudar Di­reito e gra­duei- me na Pon­ti­fícia Uni­ver­si­dade Ca­tó­lica, onde me tornei mestre, in­clu­sive. Lembro como se fosse hoje que no pri­meiro dia de aula na fa­cul­dade, já ima­gi­nando estar livre da pe­sada carga do co­le­gial e do cur­sinho, re­cebi um aviso dele: “no final do dia vamos com­prar seus ternos, porque você co­meça no es­cri­tório amanhã”; Con­fesso que al­gumas vezes, es­bocei re­cla­mação por já estar tra­ba­lhando, mas hoje vejo isso como um prêmio: não é todo filho que pode passar quase 24 anos tra­ba­lhando junto com o pai e dizer, com or­gulho e agra­de­ci­mento que teve o pri­vi­legio de re­ceber di­re­ta­mente dele a de­vida pre­pa­ração pro­fis­si­onal.

Acom­pa­nhei-o em de­le­ga­cias, fó­runs e tri­bu­nais, jul­ga­mentos, júris, au­di­ên­cias e sempre au­feria algum en­si­na­mento. Ele sempre se pre­o­cu­pava em me in­dicar o ca­minho ou um atalho, apon­tava para o pro­blema e ofe­recia a so­lução. Era um homem apai­xo­nado pela ad­vo­cacia e isso se mos­trava evi­dente em quem com ele con­ver­sava, ainda que por rá­pidos mo­mentos. Quando acei­tava o pa­tro­cínio da causa de seus cli­entes, mer­gu­lhava de corpo e alma, ja­mais se cur­vando às ar­bi­tra­ri­e­dades, aos abusos de poder e à in­to­le­rância. Aler­tava-me re­pe­ti­da­mente de que o ad­vo­gado, sendo parte ne­ces­sária à tríade da Jus­tiça, não deve se en­vergar ja­mais. Deve agir com in­de­pen­dência, fi­de­li­dade e le­al­dade, porque ele é a úl­tima es­pe­rança da­quele que clama por jus­tiça, da­quele que tem sua li­ber­dade ame­a­çada ou sua dig­ni­dade atin­gida.

Não posso omitir igual­mente que no âm­bito pes­soal en­sinou-me a ser não só um pro­fis­si­onal, mas, acima de tudo, um homem não apenas no as­pecto bi­o­ló­gico e, sim, um homem de ca­ráter e pra­ti­cante de boas ações.

E ja­mais po­deria deixar de men­ci­onar, dentre os inú­meros le­gados que ele me deixou, a paixão in­con­tes­tável pelo Co­rinthians que nos unia e nos fazia passar, a mim, meu filho e al­guns de meus amigos, mo­mentos ines­que­cí­veis.

Eu po­deria es­crever um livro sobre nosso re­la­ci­o­na­mento e ainda o farei, mas neste mo­mento, pon­ti­fi­cando sua in­subs­ti­tuível pre­sença na minha vida, queria re­gis­trar que estas e tantas ou­tras coisas eu “aprendi com meu pai”, um homem guer­reiro, sábio e um exemplo para mim.

Apesar da dis­tância fí­sica, sempre o le­varei em meu co­ração e em pen­sa­mento, porque ele sempre foi, é e con­ti­nuará sendo meu grande ídolo e in­cen­ti­vador.

Currículo

O fun­dador, Helio Bi­alski, foi um dos mais ex­pe­ri­entes e mi­li­tantes ad­vo­gados de São Paulo. For­mado pela Fa­cul­dade de Di­reito da Uni­ver­si­dade Pres­bi­te­riana Mac­kenzie (1964), foi pro­fessor-fun­dador da Fa­cul­dade de Di­reito das Fa­cul­dades In­te­gradas de Gua­ru­lhos (1968-1979). Foi mestre pela Uni­ver­si­dade de São Paulo com o tema “Da in­di­vi­du­a­li­zação Penal” (1969), pu­bli­cado na Re­vista dos Tri­bu­nais nº 428. É de­tentor de inú­meros tra­ba­lhos pu­bli­cados em re­vistas e jor­nais es­pe­ci­a­li­zados em Di­reito Cri­minal, além de par­ti­ci­pa­tiva atu­ação em con­gressos e con­fe­rên­cias no Brasil, França, Mé­xico, Ar­gen­tina e Ve­ne­zuela, sendo também membro ti­tular da Con­fe­rência Ar­gen­tina de Cri­mi­no­logia, da So­ci­e­dade Ve­ne­zu­e­lana de Di­reito Penal e Cri­mi­no­logia, do Centro In­ter­na­ci­onal de Es­tudos Ju­rí­dicos Nelson Hun­gria; da So­ci­e­dade Bra­si­leira de Cri­mi­no­logia e Ci­ência Pe­ni­ten­ciária e da So­ci­e­dade In­ter­na­ci­onal de Cri­mi­no­logia com sede em Paris. Pos­suidor da láurea de Ad­vo­gado Cri­minal de 1980, ou­tor­gada pela im­prensa es­pe­ci­a­li­zada, além do tí­tulo de Ad­vo­gado Cri­minal do ano, em 1991, ou­tor­gado pela As­so­ci­ação dos Ad­vo­gados Cri­mi­nais do Es­tado de São Paulo, As­so­ci­ação da qual foi também pre­si­dente entre 1989 e 1990.